O World Energy Outlook 2025 da IEA projeta que, para manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C até 2100, serão necessárias cerca de 3,8 GtCO₂/ano em remoções, combinando BECCS e DACS. Em 2050, as remoções somariam ~2,1 Gt/ano, com BECCS ~1,1 Gt e DACS ~1,0 Gt, avançando para ~2,0 Gt e ~1,8 Gt em 2100, respectivamente. A agência ressalta que o aumento de BECCS é limitado por oferta sustentável de bioenergia e, sobretudo, pela infraestrutura para conectar plantas dispersas a grandes sítios de armazenamento de CO₂. DACS, por sua vez, não depende de biomassa, mas é mais intensiva em energia e custo; no cenário da IEA, demandaria pouco acima de 13 EJ/ano em 2100.
O relatório chama atenção para a defasagem entre ambição e oferta. A capacidade global de remoções está próxima de 1 Mt/ano hoje; mesmo que os anúncios atuais se materializem e elevem esse número em mais de 80 vezes até 2035, o volume ainda ficaria aquém dos ~660 Mt/ano requeridos no cenário NZE. Atingir, no fim do século, 2 Gt/ano via BECCS e 1,8 Gt/ano via DACS implicaria gasto anual ligeiramente acima de US$ 850 bilhões.
Nesse contexto, o Brasil aparece com vantagens relativas. A IEA destaca a liderança regional em bioenergia — com elevada penetração de etanol no transporte — e um potencial de biogás que é o maior do mundo, mas ainda subutilizado. A produção anual está na ordem de 0,7 bcme, com espaço para ampliar o uso de resíduos agrícolas e vinhaça. A lei Combustível do Futuro tende a acelerar esse movimento. Além do valor energético, o upgrading a biometano gera um fluxo de CO₂ biogênico de alta pureza, passível de captura e armazenamento.
A economia do biometano na América Latina e Caribe permanece desafiadora sem incentivos: o custo médio é estimado em ~US$ 23/GJ, acima do preço final do gás natural em vários mercados da região. Acesso à infraestrutura — por exemplo, redes de gás — pode ampliar a demanda. No Brasil, o REIDI já contempla biometano entre os projetos com isenção tributária para materiais e equipamentos.
Para investidores e compradores de CDR, a leitura é pragmática: fluxos de CO₂ biogênico provenientes de etanol e RNG reduzem a penalidade energética típica de DACS; a infraestrutura de coleta, compressão, liquefação, transporte e armazenamento salino é o elemento determinante para transformar potencial em volume contratável. A combinação de disponibilidade de feedstocks, políticas setoriais e projetos de infraestrutura orienta o Brasil a um papel relevante no fornecimento de remoções duráveis e verificáveis nas próximas décadas ◼︎
*Link para o relatório: *https://www.iea.org/reports/world-energy-outlook-2025. IEA – Agência Internacional de Energia, organismo intergovernamental vinculado à OCDE, sediado em Paris. Publica o World Energy Outlook e compila estatísticas e cenários energéticos globais.
