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Proálcool, 50 anos depois: do choque do petróleo à nova economia do carbono

2025-11-15 · Renan Lopes · PT

Há 50 anos, o lançamento do Proálcool marcou uma das decisões estratégicas mais importantes da história econômica do Brasil. Em pleno choque do petróleo, o país decidiu construir uma cadeia de biocombustíveis em escala, integrando indústria automotiva, setor sucroenergético, pesquisa tecnológica e política pública de longo prazo. À época, tratava-se sobretudo de reduzir a dependência do petróleo importado.

Meio século depois, o quadro é outro: o mundo discute metas de net zero, créditos de carbono e combustíveis sustentáveis para aviação. Mas o legado do Proálcool continua no centro do tabuleiro. O programa ajudou a formar um dos ecossistemas de bioenergia mais avançados do mundo, com infraestrutura instalada, base agrícola competitiva, tecnologia proprietária e um corpo técnico que domina desde a genética da cana até a engenharia de combustíveis avançados. Poucos países conseguiram combinar, em tal escala, segurança energética, desenvolvimento regional e redução de emissões.

De política de crise a ativo estrutural

O Proálcool é também um estudo de caso sobre visão de ciclo. Concebido em resposta ao choque do petróleo dos anos 1970, o programa criou um ativo estrutural: uma indústria capaz de gerar novas ondas de valor inseridas num novo contexto energético.

Na primeira fase, o foco estava no etanol hidratado como substituto direto da gasolina. Depois vieram a flex-fuel, a bioeletricidade a partir do bagaço de cana e, mais recentemente, o biogás e o biometano produzidos a partir de resíduos do etanol. Hoje, o mesmo ecossistema que nasceu para mitigar o risco do petróleo disputa espaço em temas como etanol de baixo carbono, combustíveis sustentáveis para aviação e transporte marítimo, bioeletricidade, biogás e captura de carbono.

O que começou como política setorial tornou-se, na prática, uma plataforma industrial e tecnológica. Usinas, tradings, montadoras, produtores rurais, desenvolvedores de tecnologia e investidores de infraestrutura compartilham, ainda que nem sempre de forma coordenada, um mesmo ativo: a capacidade de transformar biomassa em energia e, cada vez mais, em serviços climáticos.

A nova fronteira: quando energia encontra finanças e clima

Cinquenta anos depois, a fronteira relevante já não é apenas tecnológica, mas também financeira e regulatória. A questão não é mais se o etanol funciona no tanque de um automóvel, e sim como esse ecossistema pode capturar valor em um mundo que precifica emissões, remunera remoções de carbono e exige rastreabilidade ambiental.

É nesse contexto que surgem iniciativas como a Endura Carbon, dedicada à captura e ao armazenamento geológico permanente de CO₂ em reservatórios salinos. Ancorada na indústria do etanol, a proposta conecta emissões biogênicas à infraestrutura de remoção de carbono.

Na prática, isso significa adicionar novas camadas de valor à mesma tonelada de cana. O açúcar e o etanol seguem relevantes, mas passam a conviver com moléculas e serviços que não existiam à época do Proálcool: biometano, créditos de carbono, certificados de remoção, combustíveis sustentáveis para aviação e navios e contratos de longo prazo com grandes compradores globais de descarbonização.

Capital de longo prazo e previsibilidade regulatória

Projetos de biometano em escala, plantas de BECCS e hubs de estocagem geológica de CO₂ são, por definição, ativos intensivos em capital, com horizontes de 15 a 30 anos e forte exposição a risco regulatório.

Atualizar o legado do Proálcool, portanto, implica mais do que preservar a competitividade agrícola e industrial do setor sucroenergético. Exige atrair capital de longo prazo – local e internacional –, aprofundar a integração entre mercado doméstico e internacional de energia e carbono e construir mecanismos regulatórios que remunerem, de forma previsível, atributos ambientais como baixa intensidade de carbono, capacidade de remoção e permanência do armazenamento de CO₂. Sem esse arcabouço, o Brasil corre o risco de ver sua vantagem comparativa na bioenergia diluir-se em meio a incertezas regulatórias e competição internacional por capital climático.

Um aniversário menos nostálgico e mais estratégico

Celebrar os 50 anos do Proálcool é, portanto, menos um exercício de nostalgia e mais um convite à responsabilidade. O programa mostrou que o país é capaz de desenhar, financiar e escalar uma agenda de política pública e investimento industrial ao longo de décadas.

A pergunta que se coloca agora é se o Brasil será capaz de repetir esse movimento em uma nova versão, conectando bioenergia, mercados de carbono e infraestrutura de descarbonização em escala. A Endura Carbon é um exemplo de como o setor privado se move nessa direção, transformando um legado histórico em plataforma para as próximas décadas.

A vantagem comparativa do país na bioenergia é real. Convertê-la em vantagem competitiva duradoura, em um mundo que corre para zerar emissões líquidas, dependerá da capacidade de articular política pública, tecnologia e capital privado em uma nova agenda de investimentos. O Proálcool abriu esse caminho. O próximo capítulo, agora, será escrito muito além da bomba de combustível ◼︎

Endura

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